Carta de uma madrinha – Aos “ados”

Machuquem-se, não se esqueçam de machucar-se.
Caiam, sujem-se do barro dos lugares.
Não deixem que ninguém limpe o barro de vocês enquanto brincam.

Saibam que estar sujos de barro não é feiura, é sintonia com o que frutifica.
Vocês aprenderão a tomar banho sozinhos um dia.
Aproveitem o barro enquanto a sociedade não exige perfumes nem maquiagens de vocês.

Sejam firmes como o primeiro continente que se partiu, Pangeia.
Também lembrem-se que ele se partiu.

Divirtam-se para que nos dias febris vocês possam ter na mente cores multiplicadas.
Escutem música no sol e na sombra, aprendam acordes e tenham motivos para acordar.
Dancem mesmo sem saber, as pessoas acabam aprendendo ao trocar os pés.

Escutem e perdoem os mais velhos, eles nem sempre sabem o que fazem.
Eles aprenderam com os erros deles que serão diferentes dos seus.
Vocês serão um dia “ensinantes” e perdoados também.

Que metade de vocês seja cansaço e a outra metade seja roupa de nadar.
Que os hinos que vocês aprenderem sejam hinos, que as bandeiras sejam bandeiras.
E que vocês não se esqueçam de que os símbolos às vezes são seres respirantes.

Saibam que não existem raças distintas, existem desenhos distintos.
Todos somos raça, até os bichos são raça.

Voltem a perdoar, aprendam primeiro a perdoar, o amor virá sozinho.
Saibam que o amor é criativo, pegará vocês de surpresa, virá com paz e caos, e os fará sorrir antes mesmo de anunciar a chegada.
Não precisam ficar ansiosos, ele existe, só precisam saber disso.

Crianças que vivem na rua são amigas, não deixem ensinarem vocês a fugirem delas.
Conversem com elas e dêem bom dia.
Ensinem no futuro aos seus filhos que elas são crianças como eles.

Não fujam de assunto sério, se for para brigar que seja briga boa.
Não briguem atoa e não sintam culpa caso não estejam confortáveis em perdoar.
O momento do perdão chegará, e não sentir culpa acelera o passo.

Haverá gente ruim no caminho de vocês, é aquela parte do “machuquem-se”.
Não conseguirei protegê-los.
Não sejam coitados, ninguém quer aprender com a pirotecnia de um coitado.

Não deixem de ler e de estudar de verdade, internet engorda.
Vocês muitas vezes irão pedir e aceitar ajuda das pessoas erradas, eu sei.
E haja paciência para desfazer o nó.

Prestem atenção nas tatuagens de uma pessoa, elas contam sobre ela.
A falta delas também conta.

Vocês irão ouvir e ler nos livros de história que o socialismo não deu certo.
Mas saibam que o capitalismo também não deu.
Finjam não terem nada de material a oferecer às pessoas, e vejam o que acontece.

Amem sem muitos “améns”.
Já vi mais gente triste por dizer Amém do que por dizer Amor.
Poetizem-se, atrapalhem-se, colorizem-se, e não vendam-se.

amor
da Madrinha


Por Raquel Alvarez – Publicitária, Jornalista, e Produtora.

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3 comentários sobre “Carta de uma madrinha – Aos “ados”

  1. Belíssimo e inspirado texto. É simples e verdadeiro, assim como a Dinda do Felipinho. Admiro você. Pode continuar dando seus bons recados. Mas, nem todos serão compreendidos por todos…Você anda além. …

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