#CRÔNICA -APRENDI A CONVERSAR COM AS BORBOLETAS

Não sei se os meus dedos deslizam com o azeite de palavras em vão. 

Palavras temperam nossas imprudências. Nossas imprudências vivem se comunicando por vias periféricas que não olham nos olhos e que apenas esperam registros comuns e felizes. 

A palavra escrita não tem cor, ela apenas fala das cores. Ela não tem som, e vive sendo base da música que nasce na alma de quem compõe. A palavra é oralidade, é provocação de memória, registro reto das incongruências humanas que ainda não sabem se querem morrer ou viver.

Para a palavra virar cor, música, história, memória, ela vai precisar produzir os bons fios da seda. Quanto melhor o fio, melhor a seda, melhor o tecido que virá depois.

Letras soltas ainda são a lagarta sem asas, lagarta que ainda não fiou a pupa do casulo que a fará movimentar uma, depois duas asas. Letras soltas ou plagiadas só rastejam com vida e mais nada, o plágio é parasita demais. Lagartas comem folhas, picotam árvores no risco de serem esmagadas, talvez pulverizadas, ou até virarem presa fácil das centenas de cadeias alimentares da natureza. Ser lagarta não é garantia de ser borboleta.

A palavra fia a seda enquanto é praticada. O tempo de fazer o fio para a metamorfose que nas larvas duram semanas, para este tempo humanizado cheio de relógios e nenhuma hora certa, pode durar centenas de tempos.

Quem inventou o tempo não inventou a palavra, quem inventou a palavra não foi o criador da música, quem criou a música não foi o inventor da história das coisas. Quem inventou as coisas não foi quem inventou o espírito, quem inventou o espírito tinha a certeza do livre arbítrio humano e das metamorfoses do cosmos.

Quem inventou o cosmos deixou recados, deixou sinais, deixou que fossem criados instrumentos de escrita, de registros. Deixou o livre arbítrio a quem redige para que possa morrer como lagarta, ou como borboleta.

A escrita é lagarta, o livro é borboleta. O roteiro é lagarta, o filme é borboleta. A tinta é lagarta, o quadro… 

Quando converso com espíritos alguns me dizem: sou borboleta. Chegam perto já com a ousadia de pousar na minha câmera ou nos meus cabelos. Eles conhecem o meu medo, e por isso se aproximam assim fazendo baile.

Palavra crua e fio de casulo de lagarta são jovens aprendizes, já os livros e as borboletas, voam. Palavras e fios de seda padecem de executores, imaturos ou não, padecem de sentido sensorial de quem cria, de quem tece. 

O fio do lápis é um fio, o da seda também. Fio do pincel, do desenho, do cabelo, fio da roupa, do agasalho, fio da meada, o fio da puta.

Quem inventou as borboletas já sabia ler e escrever.

Por Raquel Alvarez – Produtora audiovisual e jornalista

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